JOSÉ MURTINHEIRA
Half-Esquerdo e Capitão do 'Operário'
Fala ao Mensageiro do Ribatejo
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José Murtinheira em 1931 |
Velho amigo do Operário, o Murtinheira não falta á 'chamada', quando a sua presença é imprescindível.
No próximo domingo, contra o onze de honra do Carcavelinhos, é a ultima vez, pelo menos oficialmente, que veremos o Murtinheira com a 'equipe' preto e branco.
Seria interessante ouvir Murtinheira, colher as suas impressões de jogador de futebol, uma vez que ele vai recolher á 'privada'. Será esta entrevista o início das faladas entrevistas com os jogadores de futebol do nosso concelho.
Acabado um 'gancho' de pintor, seu oficio, e em seguida a um treino, Murtinheira põe-se ao nosso dispôr, aqui no acanhado gabinete da nossa redacção.
A primeira pergunta, naturalmente, é saber quando e como Murtinheira começou a dedicar-se ao futebol.
Os primeiros chutos
- Foi aí por 1918! Comecei no Empregados do Comércio, um grupo de rapazes. Lembro-me que quando chegaram as 'equipes' o grupo 'rebentou', nunca efectuando nenhum desafio.Nem chegámos a estreiar as equipes... que devem estar em poder do Norberto...
A ida para o Operário
Quando acabou o Empregados no Comércio, para onde foi?- O Operário organizou nessa altura dois 'teams' infantis e eu fui incluido no segundo. Fez-se um desafio contra o infantil do Alhandra Sport Club e eu fui noprimeiro, perdendo o Operário por 5-2. Foi este o primeiro desafio que fiz equipado.
- Jogou muito tempo no infantil?
- Até 1922!
Um 'desvio'
No mesmo ano organizou-se 'Os Leais', composto por jogadores do Operário, e eu fui para o novo grupo. O primeiro desafio que fizemos foi contra o 'Racing Club Português'; ganhámos nós por 2-0. Fomos a Santarém, onde jogámos contra o Operário, os '13' e, novamente contra o Operário, fazendo os resultados de 2-0, 2-2 e 1-2. A segunda derrota que sofremos foi do Marvilense, por 7-2. O 'Leais' organizou-se motivado a questões suscitadas entre os meus companheiros e a direcção do Operário.Eu compreendi que esta procedera mal e, por isso, acompanhei os meus camaradas.
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O Mensageiro do Ribatejo nº55 |
- Um ano certo, mas nesse espaço de tempo conseguiu fazer boa figura.
O bom filho á casa torna...
Extinto o 'Leais' onde alinhei pela primeira vez, no seu onze de honra e onde até hoje me tenho conservado.Um como há poucos...
- Porque deixa você de jogar á bola?- Deixo de jogar, motivado á minha vida. Constitui família e os domingos teem que ser aproveitados e por isso, embora com desgosto, deixo de jogar á bola, pelo menos oficialmente. Se dum momento para o outro o Operário necessitar do meu esforço, apelando para mim, eu não terei duvida alguma em novamente envergar a 'equipe'. Mas a minha idade já vai fazendo com que eu não tenha as aptidões físicas que antigamente possuía. Os anos vão passando... e eu prefiro retirar-me voluntariamente a ser obrigado a retirar... Enquanto um homem mexe na 'borracha' todos o aplaudem mas quando as faculdades falham todos protestam contra o que de mau se faça, não se lembrando do passado. Eu penso assim, mas, infelizmente, nem todos assim pensam... Eu o que desejo é que o Operário faça boa figura... Não sei se me faço compreender...
Recordações - Boas e Más, Águias e Leões
- De todos os desafio por si efectuados qual foi aquele que pior impressão lhe deixou?- Contra a reserva do Benfica. Como demonstração de futebol deixou muitíssimo a desejar. Fartei-me de levar 'tacada' e as minhas costas testemunharam as 'carícias' dos Benfiquistas.
- Qual foi o desafio que mais gratas recordações lhe deixou?
- Foi o desafio efectuado contra o Sporting de Tomar, que possuía um grande conjunto. Nós ganhamos-lhe por 1 a 0, goal marcado por António Vitorino mas se esse resultado obtivemos foi devido ao grande esforço que, em conjunto, empregamos. Ainda me lembro do 'team' que jogou nesse desafio! Foram o Norberto, Eduardo Pais que era o capitão, Francisco Constâncio, Luís Salvaterra, António Joaquim Pardal e eu. Avançados foram: José Tomé, Julio Vitorino, Raul Campos, José Mesquita e António Vitorino.
Aquilo é que era amor pelo club! Infelizmente essa dedicação não frutificou!...
A seguir a este desafio o que mais gratas recordações me deixou foi o desafio que há pouco fez nesta vila o mixto do Sporting Clube de Portugal; como demonstração foram eles.
Murtinheira lembrando-se, talvez, que nós pertencemos aos corpos gerentes do Sport Club das Avenidas, diz-nos:
- Um grupo com quem gostei de jogar foi com o Avenidas, a primeira vez que cá veio. Era um belo grupo!
Adversários...
- De todos os jogadores que tem defrontado, qual foi aquele de cujo jogo mais gostou?- De todos destaco José Luís, do Belenenses, e dr. Abrantes Mendes, do Sporting.
Preferências...
- Qual o grupo de futebol de Lisboa que você mais gosta?- De nenhum. Sou tanto leão como águia ou belenenses. O único grupo de futebol que 'gramo' é o Operário da minha terra.
- Qual o jogador de Vila Franca que melhor impressão lhe tem causado?
Prontamente, sem mesmo nos dar tempo a concluir a pergunta, Murtinheira diz-nos:
- Julio Vitorino, como meia-direita, nunca existiu outro igual em Vila Franca. José Tomé também foi um bom jogador.
Pretos e Brancos
- Dos jogadores que envergam a 'equipe' do Operário, qual aquele que mais gosta de ver jogar?- João Francisco! Pena é que as condições da sua vida não serem outras; julgo que muito mais haveria a esperar dele. Mas, coitado...
- Encontra-se satisfeito com a reorganização do Operário?
- Satisfeitíssimo com os corpos directivos. Mais do que eles tem feito era impossível fazer-se.
- E quanto a jogadores?
- Encontro-me satisfeito, mas já gostei mais da técnica praticada pelo 'team' de honra. Quando R. da Silva estava no eixo da defesa havia mais conjunto.
Reconheço, no entanto, que nem todos teem o amor que é indispensável ter ao club. Amigos verdadeiros do Operário, conto Francisco Santos, Cardoso e Pandeireta. De mim não falo; os outros que me apreciem... Enquanto não tivemos campo vi os que eram amigos...
O desafio para Domingo
Como encara você o desafio do próximo domingo?- Espero que ele decorra com correcção, como é próprio de desportistas. Com um 'team' da divisão de Honra de Lisboa espero que o final dos 90 minutos cheguem com o Operário a perder, no entanto se todos levarem para o rectângulo a mesma vontade que eu levarei estou certo que colocaremos bem o nome do Operário e de Vila Franca.
Perder não é desonra, demais tratando-se dum grupo bem cotado, que já foi campeão de Portugal.
E, com estas palavras,a entrevista é dada como terminada
N. de C.
Mensageiro do Ribatejo Nº55
29 Janeiro de 1931
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